Escolas preparam exames digitais obrigatórios no 9º ano com computadores “obsoletos” ou “avariados”, internet “lenta” e sem técnicos de informática

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Ainda sem terem sido tornados públicos os resultados das provas de aferição em formato digital, que se realizaram em maio de 2023, as escolas preparam os exames do 9º ano também em suporte digital. Com uma diferença: se as provas de aferição não têm peso na classificação dos alunos, os exames nacionais do 9º ano contam para nota. Os professores alertam que as escolas não estão preparadas e os pais prometem estar atentos

Ana Paula Frederico é professora de matemática do 3º ciclo do Ensino Básico. Por estes dias, apesar de o ano civil estar nos primeiros dias, no seu pensamento e no dos seus alunos do 9º ano da Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal, estão já os últimos dias do ano letivo que agora entra na segunda metade. Ana Paula prepara já os alunos para os exames nacionais do 9º ano, que se realizam em junho, contam para a classificação e vão ser feitos este ano pela primeira vez em formato digital. Um fator que acrescenta ansiedade a professores e alunos.

“As escolas não estão preparadas para a realização destas provas em formato digital. Existem falhas nas apps do Ministério da Educação. A internet é muito lenta. Os alunos têm de reiniciar constantemente os computadores perdendo tudo o que já têm realizado. Principalmente os bons alunos vivem uma ansiedade desnecessária”, resume a professora.

A opinião é secundada pela presidente da direção da Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI). Fernanda Ledesma continua a lista de fatores que a levam a acreditar que não estão reunidas as condições para se concretizar esta opção já em junho deste ano. “Os equipamentos da maioria das salas estão obsoletos, continuam a ser os computadores que chegaram às escolas em 2009, no âmbito do Plano Tecnológico da Educação. Quanto aos equipamentos do Kit Escola Digital do Plano de Transição Digital nem todos os alunos o têm e acresce que muitos destes Kits estão avariados. O número de kits avariados aumenta a cada dia que passa e o tempo de reparação é demasiado longo”, sublinha.

Em conversa com a CNN Portugal, Fernanda Ledesma acrescenta que a qualidade da Internet é muito precária e que se tenta fazer omeletes sem cozinheiros: “a largura de banda disponibilizada é pouca para tantos alunos acederem em simultâneo à Internet. (…) Ainda, que se optasse pelo servidor offline, continua a não haver técnicos de informática na maioria das escolas para assegurar o suporte a este processo”.

“Estes processos não podem ser feitos a contar com a boa vontade e disponibilidade dos professores de informática, que também têm as suas turmas para lecionar”, reclama.

“Lembramos que o grupo de informática foi um dos primeiros a sentir a falta de professores. É um grupo onde ainda há muitos horários por atribuir e onde foram contratados muitos em oferta de escola, sem habilitação para a docência”, acrescenta Cristina Mota, porta-voz do movimento cívico de professores Missão Escola Pública.

Todos iguais… mas pouco

IAVE – Instituto da Avaliação Educativa prevê que todos os momentos de avaliação em formato de papel terminem em 2025. O processo será gradual: este ano, os exames finais de 9.º ano vão ser feitas em computadores e, para o ano, será a vez dos exames do 12º ano que se prevê também deixem de ser feitos em papel e com caneta.

Já no ano letivo passado se deu um primeiro passo nesse sentido. As provas de aferição do 2º, 5º e 8º anos foram realizadas em suporte eletrónico. As provas aconteceram em maio de 2022 e, até ao momento, os resultados ainda não foram tornados públicos. Além disso, o cenário em que decorreram, com muitos alunos impedidos de fazer as provas por causa das greves dos professores, deixam dúvidas a quem está todos os dias nas escolas se podem servir de exemplo para o futuro.

Fernanda Ledesma teme que a igualdade entre os alunos saia prejudicada nesta forma de avaliação. Se muitos alunos não têm acesso a um computador com qualidade suficiente para preparar e realizar as provas, há ainda os que nem sequer tiveram acesso aos conhecimentos básicos necessários. “Embora exista a disciplina de TIC do 5º ao 9º ano, o tempo atribuído em grande parte das escolas, não permite consolidar as aprendizagens essenciais previstas. No que concerne ao primeiro ciclo, a integração das tecnologias está dependente da sensibilidade e das competências dos professores, bem como das condições existentes em cada escola. Há professores que fazem uma integração pedagógica equilibrada das tecnologias em sala de aula e outros que raramente as utilizam, logo a preparação dos alunos será diferente”, diz a responsável.

“É uma prova com um peso que de 30% na avaliação, quando o aluno não é preparado para estas circunstâncias. Além disso, há escolas com projetos implementados que não preveem sequer testes de avaliação. Esses alunos não vão estar em igualdade de circunstâncias com os restantes colegas”, acrescenta Cristina Mota.

A porta-voz do movimento cívico Missão Escola Pública lembra ainda que não há forma de fiscalizar os computadores dos alunos para certificar que não há ajudas externas. “Nas provas manuais, em Matemática, por exemplo, os professores vão verificar as máquinas calculadoras. Quem é que no dia da prova vai certificar-se que os alunos estão a fazer as provas em pé de igualdade?”, questiona.

Elementos impossíveis de avaliar

Ana Paula Frederico prossegue com a preparação dos alunos, mas ainda sem perceber como será possível a avaliação de determinados conteúdos de uma disciplina como a Matemática em suporte eletrónico. “Presumo que em formato digital, as provas sejam sobretudo de escolha múltipla, de verdadeiro ou falso, de seleção. E na nossa disciplina não basta isso. Os alunos têm de fazer esquemas, têm de fazer tabelas… Numa pergunta aberta, mesmo que o resultado final não esteja correto, o professor corretor tem como ir buscar algumas cotações ao raciocínio. Em testes de escolha múltipla, ou está certo ou está errado. Mesmo que as escolas tivessem condições, na matemática, não acho que seja benéfico”, considera.

E se o formato digital, se as provas forem de facto em escolha múltipla e de seleção como se prevê, não permite avaliar a capacidade de raciocínio ou de fazer esquemas e tabelas dos alunos de Matemática, também não permite certificar questões como a ausência de erros ortográficos ou gramaticais nas disciplinas de Português.

“A implementação desta forma de avaliação não pode de forma alguma ocorrer da maneira como está a ocorrer. É como começar uma casa a partir do telhado. Sem os alicerces”, resume Cristina Mota, porta-voz da Missão Escola Pública.

A CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) diz não ter ainda uma posição definida sobre o tema. Mariana Carvalho, presidente da CONFAP, diz estarem à espera da divulgação dos resultados das provas de aferição do ano letivo passado para tomarem uma posição. A responsável adianta à CNN Portugal que a CONFAP vai “solicitar uma reunião com o IAVE” para discutir o assunto.

A CNN Portugal questionou o Ministério da Educação, através de um email enviado a 7 de novembro, para saber como estão a ser preparados os exames nacionais do 9º ano em formato digital e se as escolas estão a ser dotadas de meios materiais e humanos necessários para assegurar a igualdade e a equidade entre os alunos. Até ao momento, ainda não obtivemos resposta.

Em entrevista à TSF, no início do mês de novembro do ano que agora terminou, o presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), Luís Pereira dos Santos, falava já dos exames nacionais em formato digital no 12º ano e garantiu que o organismo está preparado para ter as provas em formato digital e confirmou que está em marcha um projeto-piloto que vai testar os exames nacionais do ensino secundário sem papel e caneta já este ano.

“Houve um piloto para as provas finais de ciclo do 9.º ano, que como todos os pilotos, mostrou-nos algumas fragilidades, e ainda bem que nos mostrou porque quando formos agora analisar, já sabemos também o que é que pode correr mal, e também o que é que correu bem. Já sabemos o que é que temos de afinar para, agora, em 2024, e de acordo com o cronograma, generalizarmos as provas de final de ciclo. Estamos ainda a analisar os dados com muito cuidado. Nós não queremos avançar e cumprir o cronograma de forma cega […]. Queremos avançar de uma forma muito segura. Neste momento, o que posso dizer é que estamos convictos que o cronograma vai ser cumprido, ou seja, vamos ter a generalização das provas finais do 9.º ano e, também, se tudo correr bem, que está a correr neste momento, não razões para que isso não aconteça, vamos ter um piloto muito restrito dos exames nacionais do ensino secundário. E este é um salto que, por muito que consideremos que todas as avaliações têm a sua importância, que têm, os exames nacionais têm um peso mais forte por causa do acesso ao ensino superior”, adianta Luís Pereira dos Santos.

Ainda assim, o presidente do IAVE reconhece que nem todas as provas podem ser, nesta altura, feitas neste formato, e algumas poderão até nunca vir a ser feitas no futuro em formato digital e dá como exemplo a disciplina de Geometria Descritiva, em que “o objeto de avaliação implica que os alunos desenhem com todos os instrumentos da geometria. O desenho é um objeto de avaliação. Faz parte dos critérios de avaliação […]. No entanto, já um aspeto positivo. Essa prova será digitalizada, e será feito o upload para o sistema, e o processo de classificação vai ser feito online, o que nos traz grandes vantagens”.

Fonte: Escolas preparam exames digitais obrigatórios no 9º ano com computadores “obsoletos” ou “avariados”, internet “lenta” e sem técnicos de informática – CNN Portugal (iol.pt)

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André
André

Estudante de Humanidades do Ensino Secundário. Entusiasta pela área da Educação. Futuro Docente de História do 3.º Ciclo ao Secundário. Esteve em luta com os PE nas greves de 2022/23, tendo dado declarações para a CNN Portugal em Direto.

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