Realização de exames em formato digital está em risco

Realização de exames em formato digital está em risco (dn.pt)

No final deste ano letivo, os alunos de 9.º ano farão, pela primeira vez, os exames nacionais de Português e Matemática em formato digital. As provas, com ponderação na nota final das disciplinas, podem, contudo, não se realizar, a não ser que se avance para a aplicação em formato papel. É esta a convicção de vários diretores de escolas, contactados pelo DN. “É um enorme erro avançar já este ano com provas exclusivamente online, atendendo que as mesmas contam para a avaliação final do aluno e não é possível colocar os alunos em situação de igualdade”, conta Arlindo Ferreira, diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio, Póvoa de Varzim.

No referido agrupamento, diz o responsável, “devido à avaria de muitos equipamentos, não existem computadores em número suficiente para todos os alunos que vão ter de realizar as provas de aferição ou as provas finais”. Arlindo Ferreira esclarece ainda que os primeiros computadores entregues aos alunos tinham uma garantia de dois anos (terminou em 2022) e os equipamentos da Fase 2 ficaram sem garantia em abril de 2023. Com o elevado número de equipamentos a precisarem de reparações, o responsável acredita que se os exames fossem realizados neste momento, “não seria possível a não ser que os portáteis dos alunos fossem partilhados”.

Arlindo Ferreira garante que o número de estudantes sem computador não é residual, havendo “muitos alunos sem condições para realizar as provas”. O diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio pede ao Estado para que, “com urgência, estenda a garantia dos computadores de forma a que seja possível a sua reparação”. “Enquanto as escolas não tiverem condições para a realização das provas em formato digital, as provas devem continuar a ser feitas em formato papel”, conclui.

“São os exames de 9º ano os que mais nos preocupam”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), admite constrangimentos nas escolas devido à avaria dos equipamentos informáticos e alerta para a falta de recursos das famílias para pagar os consertos. “Os computadores foram entregues em regime de comodato. Há alunos que nunca os quiseram, precisamente para não assumirem um compromisso em caso de avaria. Para os outros, agora, sem garantia, muitas famílias não conseguem pagar os arranjos, ficando os alunos sem os computadores de que necessitam para fazer provas”, explica.

O responsável mostra-se preocupado com os exames nacionais do 9.º ano, porque, ao contrário das provas de aferição dos 2.º, 5.º e 8.º ano, contam para a ponderação da nota final das disciplinas de Português e Matemática. “Valerá a pena pensar no que vai acontecer no final do ano letivo, com exames do 9.º ano e alguns do Secundário em regime piloto, para além das provas de aferição. As provas finais de 9.º ano são as que nos preocupam mais e as coisas podem complicar-se com estes constrangimentos com os computadores. São provas importantes para a vida dos nossos alunos. Não sei se, entretanto, o Ministério da Educação tem alguma solução para esses constrangimentos que estão a surgir nas escolas, mas é preciso acautelar essa situação atempadamente”, alerta. Filinto Lima adianta não haver equipamentos necessários nas escolas para emprestar aos alunos, face ao número de equipamentos avariados.

O presidente da ANDAEP pede uma reflexão ao próximo Governo e uma “ponderação sobre a eventual necessidade de se adiarem as provas em formato digital”. “As escolas estão a questionar-se nesse sentido, se têm ou não condições para avançar com as provas e é essa a pergunta que deve ser feita ao próximo ministro da Educação”, conclui.

Já no que se refere às provas de aferição de 2.º ano, também em formato digital, Filinto Lima não tem dúvidas. Na opinião do presidente da ANDAEP, estas deviam ser aplicadas em suporte papel, por se tratar de um ano de escolaridade onde os alunos ainda estão a adquirir competências de escrita e de leitura. “Numa ou noutra situação temos de recuar, como nas provas do 2.º ano e, noutras, temos de avançar, com as devidas condições asseguradas”, conclui.

Faltam técnicos de informática

Luís Sottomaior Braga, especialista em Gestão e Administração Escolar, alerta para a falta de técnicos de informática nas escolas, que poderiam proceder a pequenos arranjos do equipamento informático, algo que, segundo conta, é muitas vezes feito pelos professores de TIC e em “sentido de missão”. “Há escolas em que em meia-dúzia de horas, 6 a 10 horas por semana, o professor, cuja função é dar aulas, anda a fazer de técnico de manutenção de computadores”, salienta. Mas o docente garante que o maior problema surgiu porque não foi acautelada, aquando da entrega dos portáteis aos alunos, a vida útil dos equipamentos e questões de falhas na conceção do programa de entrega de kits informáticos.

“O problema vem do ovo e de não se ter percebido que os PC têm uma vida útil curta. É normal que avariem quando entregues a crianças e jovens e, depois do prazo de garantia, passam a ser um encargo para as famílias, muitas sem recursos. Estamos num país pobre”, sublinha.

O especialista entende ser difícil pedir às famílias para pagarem um arranjo de um equipamento que não lhes pertence, tendo sido esse motivo que levou a que muitas recusassem os computadores “oferecidos” pelo Ministério da Educação. “O Estado entregou os PC em comodato e, passado uns anos, a solução encontrada na pandemia transformou-se num problema. E é preciso não esquecer que há PC que são entregues a segundos e terceiros utilizadores”, adianta.

Luís Sottomaior Braga diz ser necessário “olhar para o problema sem ideias ilusórias, criando um sistema de gestão de equipamentos, o que ainda não foi feito”. “É um problema de conceção, de um programa que tem defeitos e foi mal concebido à partida. A intenção era boa, mas a execução não funcionou”, garante. Para o especialista, “deviam ter-se entregado computadores a quem, de facto, não tinha condições para os comprar e devia ter-se dado redução no IRS para a compra de PC a quem o podia fazer”, explica.

Perante o atual cenário “preocupante”, o especialista acredita “fazer todo o sentido adiar as provas em formato digital”. “Quando os diretores se queixam de que não haverá PC para fazer exames, é muito provável que isso aconteça. O avanço para provas em formato digital não se pode fazer por impulso. Ser ponderado e evitar precipitações é uma boa ideia. Já se viu o ano passado que o sistema tem graves problemas. Não podemos apenas improvisar e contar com o sentido de missão dos professores, como foi o ano passado. As coisas não estão a funcionar e a escola digital não é um sucesso”, explica Luís Sottomaior Braga, acrescentando que não adiar as provas “não será benéfico, nem para a própria medida”.

O DN tentou obter esclarecimentos junto do Ministério da Educação, mas não obteve qualquer resposta até ao fecho desta edição.

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