Os estudantes estão a escrever pior – 90% dos alunos não sabem recorrer a um dicionário

A pandemia e consequente isolamento e os ecrãs e a escrita inteligente podem não explicar tudo. Os nossos filhos estão a escrever pior e a culpa também é nossa: lemos pouco à frente deles e não lhes incentivamos a leitura e escrevemos ainda menos e eles também. Fomos falar com três professores de Português, para tentar identificar a raiz do problema e procurar soluções

João Francisco Silva tem 54 anos e é professor de Português há quase 30. Dá aulas a alunos do 3º ciclo e do ensino secundário. Conversava connosco num dia de folga, enquanto procurava livros numa superfície comercial: “são para os meus alunos. Os bons alunos merecem tudo!”. João Francisco é perentório em afirmar que os estudantes “estão a dar muito mais erros de Português” e nem sequer tem dificuldade em encontrar os “problemas estruturais” que podem ajudar a justificar o fenómeno. Lemos pouco à frente dos nossos filhos e incentivamos pouco a leitura e há um “desinvestimento na Educação” que faz com que os apoios e os projetos específicos sejam reduzidos de ano para ano.

“Por exemplo, esta questão da redução do crédito horário às escolas, que retirou muitos professores de projetos específicos e dos apoios aos alunos. O Português é uma disciplina universal que está presente em todos os projetos. Não há horas para projetos e eles vão acabando, o que faz com que a prática da língua seja reduzida”, justifica.

O professor foi corretor de exames nacionais do 12º ano durante décadas e diz que é inevitável comparar a geração atual com as que já lhe passaram pelas mãos. “Já há muito tempo que não corrigia exames nacionais. Voltei a corrigir este ano e assustei-me. Alunos meus deste ano que fizessem um exame de há 15 anos não seriam capazes. O exame do 12º ano deste ano era muito fácil comparado com os de há uma década. Vivemos numa era de facilitismo. Muitos dos jovens estão muito fragilizados e muito infantilizados. E o Covid não explica tudo. Há muitos jovens que ainda não cortaram o cordão umbilical com os pais”, aponta.

Professor João Francisco Silva evoca a experiência enquanto corretor de exames nacionais para lamentar: “os alunos estão a dar muito mais erros de Português”

“Enquanto professor e pai, tenho muito receio desta geração e da próxima, porque estamos a criar jovens muito infantilizados. Os jovens têm pouca resiliência e ler é uma das coisas que fazem menos atualmente. Os jogos são mais apelativos e tudo o que é instantâneo, automático é mais atrativo. Têm um léxico muito básico e muito elementar. Tenho alunos do secundário que têm muita dificuldade em estruturar ideias e verbalizá-las ainda é pior”, acrescenta.

A prova de que os jovens leem menos do que deviam e da necessidade que têm de viver no imediatismo, diz o professor, é a “falta de compreensão nas fichas e nos testes”. Não releem as perguntas ou os textos e têm uma “dificuldade tremenda” em retirar ideias de textos escritos.

“90% dos alunos não sabem recorrer a um dicionário”

João Francisco Silva confessa preocupação quando vê alunos seus que chegam ao ensino secundário “a escrever de forma muito debilitada”. Reconhece que as tecnologias trouxeram um certo facilitismo e, por isso, têm um papel importante nesta matéria, mas sublinha que o problema não está nos telemóveis ou nos tablets, mas no (mau) uso que lhes damos.

“A culpa não é das tecnologias é de quem recorre a elas de forma incorreta. Devíamos apostar na literacia digital dos jovens, para eles terem noção e a consciência de que não basta o copy paste ou um texto bonitinho feito pelo Chat GPT. Tem de haver um treino, um investimento, um ensinamento de como se usam as tecnologias”, apela o docente.

As novas tecnologias vieram facilitar-nos tanto a vida que muitos de nós, principalmente os mais jovens, já não executamos tarefas que impliquem algum esforço. “Quando eu escrevo alguma coisa no quadro, eles não passam para os cadernos. Perguntam se podem tirar fotografia. Já ninguém faz pesquisas em livros ou em dicionários, por exemplo. E nem precisam de escrever para pesquisar. É mais fácil ditar para o telemóvel e o telemóvel responde. Noventa por cento dos meus alunos não sabem recorrer a um dicionário. E com isso não há visualização da palavra. Logo, não há memorização”, relata.

O professor João Francisco Silva diz que o problema não está nas tecnologias, mas no mau uso que se faz delas e na falta de investimento na literacia digital.

“Mas não os proíbo de usarem tecnologias. Acho que são úteis se forem bem usadas. Mas, nas pesquisas, começo sempre pelos livros”, garante.

Os alunos de Alberto Veronesi, 43 anos, são um pouco mais pequenos e estão agora a aprender as primeiras letras. Alberto é professor do 1º ciclo. Aqui, o fenómeno é menor, mas já se depara com a luta inglória contra os telemóveis, que vieram roubar a prática da escrita. “Como em tudo na vida a prática ajuda à melhoria das competências e o facto de eles estarem cada vez mais habituados aos ecrãs onde escrevem com sugestões de correção do próprio digital, como aliás acontece com os programas de escrita, acabam por não treinarem o suficiente sem as bengalas corretivas. Na escola, quando lhes pedem para escrever, os erros aparecem todos porque não há a ‘máquina’ que os corrige”, analisa.

Os erros mais comuns

Há erros que são transversais a todos os níveis de ensino, mas há também falhas que são específicas de cada época da vida. Aqueles com que Veronesi mais convive no seu dia-a-dia são os relacionados com a fonologia.

“Temos sobretudo os referentes à segmentação (juntar ou separar palavras). Em primeiro lugar, temos a hipossegmentação, como por exemplo: ‘ligame’ em vez de ‘liga-me’ ou ‘adorote’ em vez de ‘adoro-te’. De seguida, também temos erros de hipersegmentação, ou seja, separar as palavras que deveriam escrever juntas. Exemplo: ‘a mor’ em vez de ‘amor’ ou ‘a mizade’ ou ‘amiza de’ em vez de ‘amizade’. Ainda dentro dos motivados pela fonologia temos os relacionados à estrutura silábica. Como são exemplo ‘braco’ em vez de ‘branco’, ‘peciso’ em vez de ‘preciso’ ou ‘espoldiu’ para ‘explodiu’”, enumera o professor da Escola Básica Manuel Teixeira Gomes, Marvila.

Os erros mais comuns no 1º ciclo estão relacionados com a fonologia, diz o professor Alberto Veronesi. 

Mas há mais: quem está a aprender a ler e a escrever ainda troca muitas vezes o ‘ç’ e os dois ‘s’ ou o ‘x’ pelo ‘z’, não reconhece quando tem de dobrar o ‘r’ e aparecem muitos ‘caro’ que deviam ser ‘carro’ ou que antes de /p/ e /b/ deve usar sempre o /m/ e não o /n/.

João Pedro Aido é presidente da Associação de Professores de Português (APP) e acrescenta, nos alunos mais novos, um problema de construção frásica que se apoderou das salas de aula e dos recreios. “Em muitas construções omitem o verbo e os artigos quando falam. Dizem, por exemplo, ‘Professora, posso casa de banho?’ ou ‘posso água?’”, exemplifica.

Quanto aos mais velhos, diz o presidente da APP, “os problemas mais graves talvez não sejam ortografia, mas sim pontuação, sintaxe, construção e estruturação”.

Os alunos mais crescidos que se sentam à frente de João Francisco Silva acrescenta exemplos elucidativos: “Escrevem ‘pk’, em vez de ‘porquê”. “Encontrei muito isso nos exames nacionais. E eles têm muito tempo para o redigirem. Mas também dão muitos erros de acentuação. Para eles a acentuação não existe (o ‘às’ para eles é ‘as’) e confundem muitas vezes o acento grave com o agudo. O ‘para’ e o ‘pára’ veio-lhes complicar muito a cabeça. O ‘ão’ e o ‘am’… ‘farão’ aparece muitas vezes escrito ‘faram’. Há muitos nomes próprios escritos com minúsculas”, enumera.

João Francisco Silva nota que os alunos “escrevem como ouvem” e encontra muito português do Brasil misturado com a norma europeia, “porque ouvem muitos vídeos de youtubers e tiktokers brasileiros”. João Pedro Aido concorda, mas é mais específico na evocação da questão: “O problema da apropriação de certas estruturas da variedade de português do Brasil é os alunos não terem consciência se as formas são corretas ou erradas. Se veem vídeos onde ouvem alguém dizer ‘eu vi ele’, acham que está correto e passam a falar e a escrever assim”.

Ainda vamos a tempo de travar a fundo

João Pedro Aido sublinha que “não há dados que nos possam comprovar que dão mais erros, mas há dados preocupantes”. As provas de aferição, por exemplo, têm mostrado que os alunos até têm resultados mais positivos na escrita do que na oralidade. Aliás, sublinha o docente, era importante que as escolas tirassem lições das provas de aferição e implementassem programas e encontrassem estratégias que fomentassem a exposição a atividades de leitura e de escrita: “Quando a escola se organiza para lidar com este problema, isso tem impacto no trabalho dos alunos e no seu desempenho”.

“As bibliotecas escolares têm um papel decisivo e muito importante. Há estudos que mostram que um terço dos alunos nunca leram um livro ao longo de todos os ciclos letivos. Apesar de todo o trabalho notável que as bibliotecas fazem, os alunos não as procuram para requisitar um livro para ler nos tempos livres. É fundamental as bibliotecas escolares terem livros atualizados. Às vezes aquele livro pode fazer a diferença para atrair o jovem para a leitura”, sugere.

João Francisco Silva acrescenta que, em casa, também preciso dar o exemplo: “É fundamental ler à frente do filho. O filho ver o pai a ler é das coisas mais bonitas que podem existir. Ao final do dia, tem de ser um livro na mesa de cabeceira e não o telemóvel e estou convicto que isso diz muito de como a pessoa vai ter sucesso na vida”.

Incentivar a leitura é uma peça chave para travar o crescimento dos erros de Português.

O presidente da APP concorda que o problema começa mesmo em casa e dá conta de um aspeto que mais lhe “chamou a atenção nos últimos anos” e que a pandemia até pode ajudar a explicar, “mas não explica tudo”. “Há muita falta de comunicação na família, falta de interação entre os diferentes elementos da família. Isso tem implicações por exemplo ao nível da articulação das palavras, a ponto de haver mais alunos precisarem de terapia da fala. Muitos alunos que estiveram fechados em casa aquele tempo todo, como também não conviviam com ninguém de fora, regressaram às escolas com muitos problemas. As máscaras também vieram causar uma entropia muito grande, porque não vemos os outros a falar e as crianças que estão a aprender não visualizam os movimentos necessários para articular determinados sons. Mas o maior problema é mesmo a falta de comunicação”, alerta.

Já João Francisco Silva não isenta quem governa de responsabilidade e sugere uma descida do IVA dos livros, para incentivar à leitura. Mas não é só: é fundamental que os diferentes anos letivos sejam planeados atempadamente “e os manuais cheguem a tempo e horas às escolas”. E a reutilização dos manuais tem inúmeras vantagens, mas nem tudo são rosas: “Os jovens precisam de ler, sublinhar, circundar determinadas palavras. Nos manuais reutilizáveis, na esmagadora maioria dos casos não o podem fazer”.

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